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 Wednesday, April 23, 2014


Vinculação Afectiva

 

 

A Teoria da Vinculação pode ser vista como uma teoria sobre o desenvovimento socio-emocional, visto que defende que os seres humanos nascem munidos de um sistema de vinculação que lhes permite procurar a proximidade de uma figura que lhes forneça protecção e a base de segurança a partir da qual possam explorar o meio (Ainsworth, 1972, cit por CANAVARRO, 1999) e, assim, desenvolver-se enquanto pessoas.

A primeira ligação afectiva possibilitaria o desenvolvimento de internal working models, isto é, de representações das relações de vinculação, que englobam componentes afectivas e cognitivas, e são o resultado de generalizações de vivências diárias com a(s) figura(s) de vinculação, relativamente estáveis e não conscientes e passíveis de modificação através de experiências concretas.

Bowlby (1969) afirma que os working models resultam da interacção com a mãe, e que para estes serem funcionais a mãe deve ser sensitiva e respondente aos sinais e necessidades da criança.

Segundo a teoria da vinculação as manifestações de psicopatologia residem na alteração dos processos de vinculação. Existem mecanismos intermediários da relação afectiva em saúde mental, são estes: as expectativas de eficácia pessoal ou do auto-conceito, as estratégias de coping, distorção cognitiva na percepção de acontecimentos pessoais e o mecanismo de regulação do afecto.

O papel do conceito de si próprio, assume importância na perspectiva de que a vinculação sensitiva e respondente não é só uma base de segurança, a partir do qual o indivíduo pode explorar o meio, mas também um elemento capaz de produzir a sensação de que o indivíduo é capaz de despertar cuidados por parte dos outros, aumentando-lhe as expectativas de eficácia pessoal, que se generalizam a outros contextos. Ou seja, a relação de vinculação é o espaço que vai fornecendo feedback ao individuo sobre aquilo que ele é, como se a figura de vinculação de um espelho se tratasse.

Uma figura de vinculação inconsistente, ou rejeitante, produz a sensação de incapacidade para gerar capacidades adequadas por parte dos outros, o que acaba por se traduzir em expectativas de ineficácia individuais e em baixo auto-conceito. As estratégias de coping actuariam no sentido em que a figura de vinculação nem sempre exibe permanentemente comportamentos adequados às necessidades do indivíduo ou pode ser inconsistente na resposta, o que pode gerar ansiedade no indivíduo. No caso das distorções cognitivas na percepção de acontecimentos interpessoais, isto encontra-se subjacente na vinculação insegura, uma vez que estas pessoas estão especialmente predispostas a interpretar acontecimentos interpessoais indutores de stresse como rejeitções (HAMMEN et al, 1995, cit por CANAVARRO, 1999) ou como mais uma evidência da sua falta de competências sociais, podendo surgir, como resultado, sintomatologia depressiva ou outro tipo de psicopatologia. Rosenstein e Horowitz (1996:246) referiam que “a vinculação evitante é característica das perturbações em que a ansiedade é evitada, o afecto é contido e a expressão do comportamento disfuncional é directamente expressa em direcção aos outros (como acontece nas perturbações do comportamento ou no distúrbio da personalidade); a vinculação ansiosa é caracteristica das perturbações em que há consciência da ansiedade sentida, o afecto não é modelado e o comportamento disfuncional é directamente expresso em relação a si próprio (como acontece nas depressões, perturbações mediadas pela ansiedade e distúrbio da personalidade histérica)”.


Cranley (1981,p.282) definiu maternal-fetal atachment como “os comportamentos da mulher que representam ligação e interacção com o seu filho ainda por nascer”.

Muller (1993, p.11) definiu-a como a relação afectiva, única, que se desenvolve entre a mulher e o seu feto. Este conceito, segundo este autor, é mais abrangente que o conceito de vinculação porque diz respeito à construção de representações de interacções relevantes e significativas na formação de laços emocionais. O início da ligação materno-fetal, enquanto tarefa materna a desenvolver durante o período pré-natal, específica da relação diádica mãe-filho, caracteriza-se por, numa fase inicial, a mulher começar a pensar na ideia de estar grávida e, gradualmente, querer estabelecer uma relação, desenvolvendo assim uma ligação com o filho que está a gerar. Daí que, como enfatiza Muller (1993,p.11), o desenvolvimento da ligação da mãe com o feto necessitar de todo o tempo de gestação, pois esta envolve uma complexa reestruturação na vida da mulher (Mercer, 1996,p.52).

Do desejo de ter um filho, à escolha do seu nome e diminutivo, o arranjo do quarto, as compras de roupa, à imaginação do futuro bebé, da vivência dos movimentos fetais à experimentação das transformações ocorridas no plano corporal e relacional, tudo são esboços de clara filiação, ligação ou, pelo contrário, possibilidades de rejeição ou aceitação ambivalente (CRANLEY et al., 1996). Nesta perspectiva, a ligação materno-fetal, enquanto esboço da futura relação mãe-filho, proporciona ao nível do imaginário da mãe inserir o filho que irá nascer na sua história pessoal e familiar (BRAZELTON, 1990).

Winnicott refere que a construção saudável do sujeito, dá-se a partir da relação “saudável” entre a mãe e o bebé. O referencial reporta-se ao investimento libidinal no relacionamento dual, sendo que no primeiro ano de vida a mãe é encarada como um prolongamento de “si”, bem como o ambiente exterior. Se a relação mãe-filho não satisfizer as necessidades do bebé, isso pode acarretar para o bebé grande ansiedade


vinculacao


 

Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a.

Goethe